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[[[[[ Sábado, Maio 29, 2004 ]]]]]

Um pouco da história do punk
por Joacy Jamys

O punk surgiu na década de 70 na Inglaterra. No começo, as bandas tocavam punk rock, estilo que confrontava o som da época: o heavy metal, o pop e outros, onde o público apenas apreciava de longe e não tinha contato com os músicos, pois não passavam de estrelas (popstars). Citam-se bandas como Deep Purple, Pink Floyd, Yes, Black Sabbath, Led Zeppelin e outras, que tinham músicas muito trabalhadas e letras viajantes, fora da realidade que o público vivia. Principalmente, na época da guerra fria e da queda do movimento hippie, que exigia nas ruas o Paz e Amor, enquanto os punks surgiam gritando o caos que enfrentavam e diziam "No future".

O punk quebrou o som feito pra vender, criando algo de poucos acordes e letras da realidade pobre de jovens desempregados e sem futuro. Criticavam o governo, a educação, os políticos, os impostos, a pobreza, o desemprego, a falta de perspectiva e outros problemas. Contudo, bandas como Sex Pistols, criadas para a moda e vender roupas de fetiche de Malcolm McLaren, chamavam a atenção das grandes gravadoras, sedentas de dinheiro deste novo som, feito por "drogados e garotos suburbanos". Acarretando em pouco tempo, uma imagem ruim do que o punk real transmitia, onde muitos foram cooptados para virarem ícones, sifras para gravadoras e até para filmes. Mas os Sex Pistols foram sinceros ao lançarem um play minimalista chamado "Sex Pistols: A grande farsa do rock and roll".

Punk é uma gíria para podre, madeira ruim, o que não presta. A origem do termo é difícil de dizer, inclusive o escritor William Shakespeare cita "punk" em uma de suas obras, nota-se então, como ele é antigo.

A década de 70 passava, enquanto bandas como Ramones, The Clash (considerada traidora porque fez um comercial para uma multinacional de jeans) e outras, caíam na mídia enquanto outras fugiam do punk que estava sendo sugado pela discoteca, tendo o filme "Embalos de Sábado à Noite" como um marco para a queda do punk rock moda, pois as gravadoras tentavam tirar a criatividade e a espontaneidade do subúrbio pobre de jovens que montavam bandas em cada esquina, para se entregarem às danceterias.

A década de 70 ainda trouxe os fanzines punks, sendo iniciado por >Sniffing Glue< (Cheirando Cola), onde mostrava que você é capaz de fazer todo seu material sem precisar comprar revistas idiotas, camisas de lojas e pagar caro por discos e fitas. Assim, criou-se o lema DIY (Do It Yourself - Faça Você Mesmo).

A CRASS foi uma das mais importantes bandas DIY da Inglaterra, mostrando que o punk politizado e anarquista era possível, que confrontar o Estado e suas vertentes, já estava na hora. Ela causou um impacto terrível ao Reino Unido, sendo alvo de pauta de discussões no governo inglês que diziam: "Crass é um perigo. É uma das piores coisas da Inglaterra!".


ANOS 80


A década de 80 trouxe um novo punk. Para as bandas não terem seus sons sugados pelo capitalismo, precisavam de um som mais raivoso que o punk rock, hoje taxado de Punk 77 (punks que ainda curtem sons como The Clash, Sex Pistols, Sham 69, Ramones, Television, Vibrators, The Jam, Uk Subs e outras). Surgia assim o HARDCORE.

O HC relaxava o punk rock, sem discriminar. O hardcore sendo um som mais direto, batidas rápidas e letras mais politizadas e contestadoras, foi um novo marco para o movimento que andava cambaleando desde 1978. Gritavam no mundo "Punk´s not dead!" (Punk não está morto!). Na Inglaterra surgiram bandas como The Exploited (O Explorado), Varukers, Discharge e outras que até hoje existem.

Com o tempo o The Exploited, foi acusada com provas gravadas, de suas atitudes fascistas onde o vocalista Wattie dizia que "odiava negros, filipinos, latinos e marroquinos". Chegou a fazer show para que os carecas matassem alguns punks num galpão. Se declararam partidários do National Front (mov. nazista inglês). No Brasil, Exploited foi boicotado por anarcopunks e o vocalista espancou uma prostituta negra. Em turnê nos USA, Wattie declarou em rádio que odiava latinos. Ao tocar na fronteira com o México e com abertura da banda mexicana Solucción Mortal, que foi visitá-los no camarim. O Exploited espancou o vocalista e outro integrante e os obrigaram a comer merda no banheiro. Contudo, a reação real punk surgiu! Durante o show, os punks latinos subiram ao palco, destruíram a aparelhagem, espancaram o Exploited e o seu empresário. Gritavam: "el fascismo no passará!".

Nos USA, Dead Kennedys foi uma das bandas que mais marcaram época. Com letras críticas e ácidas ao governo, à polícia e a forma americana de viver e explorar, levou um processo judicial por causa de uma capa de disco. Além disso, criaram um "hino" chamado "Nazi Punks, fuck off!", uma música contra o Exploited, seus inimigos declarados. Depois do término da DK, o vocal Jello Biafra montou o selo Alternative Tentacles, fez uns discos de poesias e discursos antifascistas gravados em palestras nas universidades para arrecadar fundos pro processo. Ainda montou a banda LARD.

Outras bandas americanas de HC citamos o MDC, Agnostic Front (que virou nazi), SOD (um projeto do Nuclear Assault), Crucifix, DOA e muitas outras. Entre os novos zines estavam a revista Maximum Rock'n'roll (que foi boicotado pelos punks, por tratá-la como ditadora da postura punk).

Na Europa, o berço veio nos países escandinavos (Finlândia, Suécia e Alemanha), tendo bandas como Crude SS, Anticimex, Amebix, Rattus, Terveet Kadett, Rovsvett, Lama, Ristetyt, etc.

No Brasil, muitas bandas surgiram nesta época. Ratos de Porão, Olho Seco, Cólera, Kaos 64, Desordeiros, Brigado do Ódio, Inocentes, Estágio Zero, Hino Mortal, Armagedom, WCKaos e outras, muitas punk rock (Extermínio, Psykóze, Azilo Militar, Fogo Cruzado e etc). No Nordeste surgiam Karne Krua, Discarga Violenta, Amnésia, Fome, Estrago, Deliquentes, Condenados, AI-5, Disunidos, CU.S.P.E., HC-3, Terroristas, Grito Suburbano e outras. Infelizmente, muitas destas bandas não existem e apenas Amnésia, Discarga Violenta e Cuspe continuam na cena alternativa. A DV recentemente acabou mas lançou sua discografia completa.

A década de 90, teve muitas bandas dos anos 80 que foram sugadas pelo mercado ou largaram o movimento punk, vivendo apenas do nome que na cena criou. Inocentes entrou ainda na déc. de 80 para uma grande gravadora. Ratos de Porão não é preciso nem falar, se entregaram de corpo e alma ao consumismo. Olho Seco é distribuído por um selo que distribui bandas nazistas na Europa.

Entre os zines conhecidos da década de 80 no Brasil, existia o ES-Punk, Buracaju, Grito Punk, 1992 (do Cólera, que possuía a gravadora Estúdios Vermelhos e Ataque Frontal) e outros. Apenas o Grito Punk existe e hoje está virando revista punk anarquista.

Com muitos grupos brasileiros na década de 80, o Maranhão possuía o MPS (Mov. de Protestos Suburbano) e na déc. 90, o MAP (Mov. Anarcopunk) que virou a ULMA (União Libertária).


A DÉCADA DE 90


Os punks mudaram muito e evoluíram. Mais uma vez o famigerado mercado sonoro abocanhou o hardcore e bandas falsas no movimento ou que usavam o estilo como Raimundos, DFC, Os Cabeloduro e outras bostas, faziam letras bobas, sexistas e machistas, por integrantes que nada tinham a ver com a cena. Por outro lado, o movimento punk havia se distribuído no Brasil inteiro.

Confrontando o HC comercial, muitas bandas aderiram ao grindcore, um som sujo, rápido e sem a mínima intenção de agradar. Curte quem gosta. Como também surgiu o crustcore, som influenciado principalmente em Discharge, Terveet Kadet e outras finlandesas. Há também o loadfast, ou melhor, a total antimúsica feit apor quem não sabe tocar ou faz por gostar (como eu). Citamos a 7MON (7 Minutos de Náusea), que chega a tocar 365 sons em 19 minutos e Sore Throat com uma zoada total.

O movimento anarcopunk surgiu para incentivar mais a atitude punk como real, atacando não só musicalmente, mais as estruturas sociais que causam problemas e miséria no mundo. O anarcopunk sai para criar novas saídas diretas, preocupados com a conscientização, conta a homofobia (discriminação homossexual), xenofobia (discriminação a outros lugares, regiões, países), o armamento militar e policial, à violência urbana, a alienação da TV e da mídia, o racismo, a política profissional, a educação alienante, o capitalismo e a fama e tantas outras merdas.

Muitos são contra os anarcopunks por sua postura direta. Mas, eles estão procurando se organizar em encontros regionais, nacionais e internacionais, ações diretas, organizações de grupos e atividades culturais, sociais e beneficentes. Buscam uma forma de viver sem o estado e de maneira fraterna e libertária.

A cena atualmente possui diversas distros, bandas, zines, ocuações (squats) grupos e se organizam em encontros regionais e nacionais, inclusive um internacional em Salvador. Isso mostra que a cena punk está firme e trabalhando o que sempre propôs nas décadas anteriores.


O punk é muito mais que visual. Ele é real. Uma ameaça constante.

Retirado de GritoPunk

ANARKOMENTÁRIOS:
[[[[[ "Me, Myself And I", 11:34 AM ]]]]]
[[[[[ Sábado, Maio 22, 2004 ]]]]]

Atualizacao Normalizada , o texto é um pouco grande mas vale a pena ler.

Rede Globo de Alienação?

Por décadas, a grande Besta Negra dos intelectuais tem sido o sr. Roberto Marinho. Sejam intelectuais de esquerda ou de centro (de direita quase não há), ativistas ou acomodados, artistas ou acadêmicos, ninguém gosta desta figura sinistra. Uns consideram-no o Doutor Fausto, outros o próprio Mefistófeles. Atribuem-lhe ciladas traiçoeiras, ardis maquiavélicos, total falta de escrúpulos, ligações suspeitas, oportunismo despudorado, farsas dissimuladas, imenso poder tentacular, como um polvo; sobre ele chegam a correr lendas urbanas que o dão como falecido e secretamente substituído por um testa-de-ferro, sob o comando de poderes ocultos. Foi ele o diabólico criador da Rede Globo de Alienação, que controlaria a mente de milhões de brasileiros e os manteria dóceis e obedientes à elite dominante.

Por absoluta falta de dados e de interesse, não tenho nenhuma intenção de discutir o caráter do sr. Roberto Marinho, nem de afirmar se são verdadeiras ou falsas as acusações que lhe imputam. Mas pode-se discutir a real dimensão de seu poder, e o motivo do imenso sucesso comercial da Rede Globo. A versão aceita é de que tudo começou quando ele abraçou a causa da revolução de 64, fato que lhe renderia toda a sorte de facilidades da parte do novo regime. Bem, isso pode explicar como a TV Globo começou, mas não como ela chegou ao ponto onde chegou. E, teorias conspiratórias a parte, a explicação do sucesso da Globo, a meu ver, é bem simples. É a mesma razão de todo o empreendimento de sucesso: ela é orientada ao mercado. Em outras palavras, ela exibe ao telespectador aquilo que o telespectador quer ver.

Mas é isso o que o povo quer ver? Não, de modo algum, isto é o que ele é induzido a ver! Tudo efeito dos poderes hipnóticos do sr. Roberto Marinho, verdadeiro Goebbels renascido, no comando de uma sinistra organização de especialistas em desinformação a soldo do imperialismo norte-americano. Já ouvi uma universitária, certa vez, a afirmar com toda a solenidade que a Globo estaria empregando o método Paulo Freire ao contrário, visando alienar a sociedade inteira. Os intelectuais repetidamente criticam a Globo por falsear nossa realidade social, mostrando novelas onde todos os personagens são ricos e cheirosos. Mas como Joãozinho Trinta teve a coragem de dizer, quem gosta de miséria é intelectual, o povo quer é luxo... Para a infelicidade de nossa garbosa elite pensante, o povão não quer saber de pobre nem de revolução. Fenômeno similar ocorre em Portugal, onde as pessoas mais letradas lamentam que o país esteja invadido por novelas da Globo, produto de baixo valor cultural. Mas o sucesso destas novelas em terras lusitanas é uma evidência de que o nível mental do povo português, no fim das contas, não é muito diferente do brasileiro. Acredito ter chegado ao cerne da questão: o sr. Roberto Marinho é tão odiado pelos intelectuais porque ele comete o crime de dolorosamente mostrar aos intelectuais que o povo não é como eles gostariam que fosse...

Mas que a Globo é um sucesso, isso ninguém discute. Basta visitar qualquer barraco na favela: pode faltar tudo, mas a TV é sempre de último modelo. Já escutei a piada segundo a qual o pobre prefere comprar uma TV a uma geladeira porque, se abre a geladeira, ele não vê nada, mas se liga a televisão, ele vê tudo. Repetidas vezes ouvi "madames" indignadas por saber que suas domésticas possuem eletrodomésticos mais modernos que os delas, e vêem nisso a prova da irresponsabilidade que atribuem aos pobres, que "passam fome" e mesmo assim querem comprar uma TV último tipo. Quanto a mim, sou de opinião que o pobre sabe muito bem o que faz na vida, e se prefere comprar uma TV a fazer uma boa feira, é porque a TV lhes dá mais satisfação. E tem certo valor, sim. A televisão é a forma mais rala e massificada de difusão cultural, mas sem dúvida que é melhor do que nada. E distrai, sim. A distância social não impede que os pobres se identifiquem com os personagens ricos das novelas, e chorem por seus dramas. É a magia do Padrão Global. Em qualquer lugar do mundo, novelas são estigmatizadas por serem produções rasteiras e bregas, a ponto de serem conhecidas internacionalmente pela denominação irônica de "soup opera" (ópera de sabão), que vem dos tempos do rádio e remete aos intermináveis seriados baratos e patrocinados por uma fabriqueta de sabão qualquer, que as pessoas simples gostavam de acompanhar por não terem mais o que fazer. Por que a novela brasileira tem um padrão de qualidade diferente? Há nesse fato alguma coisa ligada a nossas peculiaridades, que nos diferenciam dos demais países latino-americanos?

Com certeza, a diferença entre as novelas brasileiras e as "mexicanas" é flagrante. Nada de tramas inverossímeis, coincidências incríveis, aristocratas que em pleno século 21 habitam mansões senhoriais ao invés de condomínios elegantes; nada de interpretações duras e falas empoladas, nem de latinos gélidos como nórdicos. O universo social, entretanto, é o mesmo: tanto nas novelas brasileiras como nas "mexicanas" o mundo é composto apenas de ricos e pobres, sem classe média. Digo novela mexicana entre aspas porque na verdade as novelas seguem este padrão em todas as partes do mundo, só a brasileira é diferente. E bem diferente. Aqui o tempo é o presente e a linguagem é a coloquial. Os acontecimentos que impactam o nosso dia-a-dia também impactam o dia-a-dia dos personagens. As locações são lugares que nos são familiares e os personagens se parecem com pessoas que conhecemos, só que... não são reais. Tudo é revestido de um discreto retoque para se acomodar ao Padrão Global.

E é este retoque a verdadeira razão do sucesso comercial das novelas da Globo. Não é um remendo tosco, é um retoque cuidadoso e esmerado. São mostradas as diferenças sociais e as mazelas morais, mas os aspectos repulsivos são eliminados. Os humildes empregados tem boas roupas e falam direito. A ex-menina de rua parece uma gatinha da zona sul. Os imigrantes do século 19 têm todos os dentes na boca e suas cozinhas são limpinhas. A garota de programa só cobra em dólares. Enfim, a Globo não mostra nada que não exista, mas tudo competentemente retocado pelo Padrão Global, que produziu esta notável invenção: o pobre que não fede.

Como nenhum pobre gosta que lhe lembrem de que é fedido, é com prazer que ele assiste às novelas da Globo. O visual exuberante e os personagens "gente fina" das novelas brasileiras, o visual démodé os personagens esquemáticos das novelas latinas, o quadro social só de ricos e pobres em ambos os casos, tudo isso ilustra nossa semelhança e nossa diferença em relação aos demais sul-americanos: não somos, em média, nem mais ricos nem mais cultos do que eles, mas sem dúvida somos bem mais diversificados e cosmopolitas.

ANARKOMENTÁRIOS:
[[[[[ Berna, 12:32 PM ]]]]]
[[[[[ Domingo, Maio 16, 2004 ]]]]]

E ae pessoal...desculpem pelo atraso mas aqui estou eu postando novamente...espero que a partir de agora as atualizações voltem ao normal!

EVOLUÇÃO, NATURALISMO e RELIGIÃO

Evolução e religião podem não estar em guerra, mas nenhum acordo parece possível nos seus mais básicos preceitos. As religiões tradicionais são baseadas no dualismo, e evolução é estritamente materialista. Dualismo é baseado na crença no sobrenatural. A posição materialista forma a base da crença no Naturalismo, o qual assegura que "O procedimento empírico de exploração e verificação é o único método confiável conhecido para descobrir a verdade" (Smith, 1952). Para o materialista, o sobrenatural não tem base na realidade, mas em vez disso, é uma distração sem garantias produzida pela mitologia.
A idéia de que o Naturalismo possa ser um tipo de religião moderna tem avançado nos últimos anos (Johnson, 2000). A biologia evolucionária desfruta de uma posição privilegiada no núcleo do sistema da crença porque oferece explicações de como e porque a humanidade se originou. Qualquer professor de evolução é por natureza um professor de uma visão do mundo profundamente filosófica, o que difere dramaticamente da visão de uma religião tradicional teística.
A proposição de que se deve "acreditar em evolução" da mesma forma como as pessoas acreditam cegamente em Deus é facilmente descontada. Noções de progresso, propósito, propriedades emergentes, otimização e a complexidade crescente em evolução, todos contêm sugestões vagas de dualismo, e são debatidos em simpósios e publicados em livros e jornais pelos evolucionistas mais ativistas da atualidade. Estes arquitetos do naturalismo moderno têm tradicionalmente evitado as idéias de religiões, mas a que grau eles descontam os restos sobrenaturais a serem observados.
A mais importante característica da biologia evolucionária é sua visão integrada do lugar onde vivemos em natural que facilmente serve a uma satisfação profundamente metafísica baseada inteiramente nos princípios materialistas. Esta provisão casada com observação de que a teologia tem perdido muito do seu apelo ao cidadão comum, serve para uma conclusão controversa que, no mundo moderno, Naturalismo é um substitutivo para, e providencia todos os benefícios da, religião tradicional. Se os naturalistas tiverem seu dia, o teísmo estará efetivamente morto.
Nós ainda vivemos em um mundo que de todas as formas é predominantemente teísta, particularmente nos EUA onde 95% das pessoas acreditam em Deus (de acordo com pesquisa Gallup de 2001). Neste ambiente, muitos biologistas evolucionários são relutantes de trazer as implicações do Darwinismo para suas extensões lógicas. Teístas votam, pagam os impostos, e ajudam as instituições de pesquisas onde muitos destes naturalistas trabalham. Teístas não pareciam ouvir a verdade vulgar da teoria evolucionária, que a humanidade não é um anjo caído, e que não há alma imortal, e que não possui livre escolha, e que não fomos especialmente criados. Então o que um biologista evolucionário naturalista pode fazer neste clima?
As opções são muitas: tanto ajudar as conclusões e controvérsias acima (como E.O. Wilson ou Richard Dawkins fazem), ou tentar firmar a visão do mundo que incorpora elementos de teologia e evolução (como Ruse, Myller, Ayala, e incontáveis deístas no passado tem feito), ou sugerir a exclusividade mútua dos dois magistérios (como Steven Jay Gould faz), ou simplesmente de forma amena, nem mesmo entrando no fórum de discussão, meramente a esperança no melhor quando os votantes não educados determinam a relevância da evolução.
Perguntas devem ser respondidas para resolver estes disparates de estratégias e visões do mundo conflitantes. Biologia evolucionária como um campo unificado está com a faca no pescoço. Da mesma forma em que está a credibilidade da teoria Darwiniana aos olhos da opinião pública. Na hora em que o trabalho atual estiver terminado, nós saberemos onde a biologia evolucionária fica no que interessa, e que grau de fé no naturalismo é suportado por seus praticantes no mais alto nível.



O PROJETO

O propósito desse estudo é determinar o grau em que os mais respeitados biologistas evolucionários no mundo acreditam na religião tradicional, naturalismo, e as implicações filosóficas de suas ciências. um mérito ainda maior será compreendido de como eles reconciliam estes disparates e freqüentes conflitos com seus aprendizados e práticas de biologia evolucionária.
O fundamento do projeto são questionários que serão enviados aos mais altamente estimados membros da comunidade de biologia evolucionária, nominalmente, aqueles que são membros da academia nacional de ciência nos EUA e da mesma forma com os membros evolucionistas de academias nacionais de outros países. O questionário é composto por três seções: 1) A declaração da crença; 2) O que a evolução ensina e o que ela ignora, e 3)Reconciliando Crença com prática científica. Pesquisando biologistas evolucionários nesses assuntos, o projeto irá ceder resultados bastante satisfatórios. Irá nos dizer o grau no qual os biologistas evolucionários acreditam no naturalismo, e se a biologia evolucionária pode formar a base de sistema ético que seja isento de raciocínio sobrenatural.

INVESTIGADOR PRINCIPAL: Greg Graffin (Zoologia)
CONSELHEIRO:WilliamB.Provine (Ecologia e Biologia Evolucionária, Zoologia)


ANARKOMENTÁRIOS:
[[[[[ "Me, Myself And I", 2:10 AM ]]]]]
[[[[[ Quinta-feira, Maio 06, 2004 ]]]]]

Rocinha Outra Vez

Mais uma vez a cidade é abalada pela guerra entre os traficantes. Só varia o morro. A bola da vez foi a Rocinha, que andava meio tranqüila há algum tempo. O último imbroglio sério que eu me lembro ocorreu há mais de 15 anos atrás, quando houve uma sangrenta disputa entre facções que culminou com o acordo celebrado entre os líderes Buzunga, Naldo e Cabeludo. Uma foto mostrou o trio no alto de um mirante, dando tiros para o alto para celebrar o fechamento do acordo. Desconfio que foi por causa desta foto que, menos de três meses após, os três traficantes já se encontravam devidamente fuzilados.

Mas a discussão não termina. Antes mesmo que alguém consiga balbuciar uma sugestão qualquer, já se levantam vozes para reiterar que aquilo é inútil, que reprimir não adianta, que os efeitos só cessam quando cessam as causas. A razão do crime é a ausência das instituições do Poder Público nas favelas - escola, emprego, posto médico, polícia. O crime seria conseqüência da ausência da cidadania; cumpre ao estado leva-la aos favelados, ao invés de inutilmente combater os efeitos sem atacar as causas.

Esta tese segundo a qual o crime não deriva de uma deformação de caráter, mas de uma deformação social, é uma tese tipicamente iluminista. Tem sua parcela de verdade, mas também é velha de dois séculos. Eu questiono se ela efetivamente se aplica às complexidades da época atual. Em primeiro lugar, qual é a verdadeira relação entre miséria e crime? Entre ausência de escolaridade e delinqüência? Entre desemprego e furtos?

Ninguém necessita ser um gênio para perceber que os países mais pobres tendem a ter uma criminalidade maior que a dos países ricos, ou que os jovens que não freqüentam escola são mais susceptíveis a cometer crimes do que os jovens que estão na escola. Mas também ninguém necessita ir à escola para saber que não se deve roubar e matar. Por trás da aparente coerência destes argumentos, há um mundo de perguntas não respondidas: Por que motivo, por exemplo, os EUA tem uma taxa de homicídios dez vezes maior que a da Espanha, país que tem 1/3 de seu PIB per capita? Por que motivo a máfia surgiu na Sicília, mas não no Algarve, em Portugal, onde o quadro social era semelhante? Por que motivo o país com a mais baixa taxa de homicídios do mundo (zero) é o Principado de Sikkim, paupérrimo paiseco de camponeses encravado na cordilheira do Himalaia? E sobretudo, por que motivo alguns dos países de mais baixa taxa de crimes do mundo tem, concomitantemente, legislações bastante severas, que prevêem inclusive a pena de morte? Lembra a história de Chapéuzinho Vermelho: "mas vovó, para que esses dentes tão grandes?"

O buraco, decididamente, é mais embaixo. O crime é fenômeno complexo, e para erradica-lo não basta uma boa legislação social, se fosse assim os países ricos já teriam fechado as suas prisões. Mas gostamos de atribuir o crime à pressão irresistível de uma carência material extrema. Isto é prático: ao mesmo tempo que exime de culpa o criminoso, vitimiza-o. A culpa é daquele "outro" - o governo, o rico - supostamente culpado pela miséria do infeliz. Infelizmente para os simplistas, nem todo crime é motivado por uma carência material. Se fosse assim, todo servente de pedreiro seria um ladrão, e nenhum político seria corrupto. Além disso, a substituição de um julgamento moral por um julgamento "social" surte o efeito de remover a culpa dos faltosos ao preço de lança-la sobre os inocentes. Quem afirma ser compreensível e desculpável que um servente de pedreiro cometa crimes, está atirando sobre todos os serventes de pedreiro a pecha de ladrão em potencial. Não sou um servente de pedreiro, mas se fosse, não gostaria de ouvir isso. O fato é que não basta remover as causas para cessarem os efeitos. As causas sociais e psicológicas do crime não podem ser, sequer, conhecidas com exatidão, muito menos eliminadas. Antes de mais nada, é necessário admitir duas verdades:

1) O crime, no Brasil, é um problema sem solução; e

2) O fato de não haver solução não é desculpa para não se fazer nada.

A própria idéia de "solução" é cartesiana e imprópria para um problema crônico. Se a questão da criminalidade não foi solucionada em nenhum lugar do mundo, certamente que não o será aqui. Mas por força e obra de doutrinamentos recebidos no passado, estamos imbuídos da crença de que a eliminação das causa remotas do crime se fará mediante "obras sociais" nas favelas. Na prática, essa política só resulta em tornar cada vez mais promíscuas as relações entre a autoridade política e os chefes de quadrilhas, com a conseqüente desmoralização destes e a legitimação daqueles como genuínos representantes de suas comunidades. Como se sabe, os grandes traficantes exercem total controle sobre seus territórios, e não admitirão ali nenhuma obra, "social" ou não, que não seja de seu interesse. A realização dessas obras só é possível após complicada negociação, via de regra bastante lucrativa para ambas as partes. A utilidade das obras também é discutível. Afirma-se que a razão da hegemonia dos bandidos seria a ausência das instituições do poder público nas favelas, e os bandidos estão lá para suprir essa carência com o seu assistencialismo. Mas confrontemos teoria e fato. Essa carência é particularmente aguda em distantes favelas da periferia, onde não há nem esgoto, e às vezes, nem bica d'água. Mas é nessas favelas que o crime organizado é mais poderoso? Falso. Nesses locais distantes, a organização criminal ainda é incipiente, e predominam pequenos marginais. As poderosas quadrilhas de traficantes se encontram nas favelas antigas encravadas no centro da cidade, onde, bem ou mal, há proximidade de tudo: escola, hospital, polícia, comércio, ponto de ônibus, locais de emprego. Como se pode, então, afirmar que o banditismo prospera na ausência do poder público? Houve um ligeiro engano no enunciado desta tese. A falha do estado não foi negar aos favelados as instituições, mas sim permitir que as instituições existentes se desmoralizassem. Enfim, permitir que os traficantes ordenassem o fechamento de escolas e comércio, corrompessem a polícia, invadissem os hospitais, etc. etc. Ofertar mais "instituições" aos favelados é dar mais carne à fera. Pergunto-me se não seria mais proveitoso promover o crescimento econômico para que o favelado ganhasse um pouquinho mais e pudesse ir construir sua casinha em algum lugar que não seja uma favela.

Se conseguirmos nos livrar da quimera de remover as "causas sociais" da criminalidade, e assumirmos de vez que o problema é policial-militar, bem poderíamos nos mirar no caso do confronto Israel X Palestinos, que contitue um cenário bastante semelhante ao nosso, ao menos em termos da forma como é feita o enfrentamento. Os acampamentos palestinos são semelhantes às nossas favelas - labirintos de casas e ruelas - e são igualmente dominados por um contrapoder belicoso e organizado (aqui os traficantes, lá os terroristas). Quando o exército israelense incursiona por estes territórios, o faz seguindo uma estratégia há muito estabelecida: primeiro um grupamento cerca a área, e não deixa ninguém entrar ou sair; enquanto isso, outro grupamento vai dando batidas casa a casa. Se encontram resistência, botam tudo abaixo - afinal, seus adversários não estão armados de pistolas, mas de armamento pesado, o que tipifica uma situação de guerra. Esta tática funciona? Não muito. Aqueles labirintos são cheios de passagens secretas e rotas de fuga, assim como as nossas favelas, e a maioria dos terroristas escapa. Mas deixam para trás o armamento pesado, a munição, as bases de operação, tudo o que não podem carregar. Essa tática derrota os terroristas? É óbvio que não. Mas causa um duro baque, do qual eles custam a se recuperar, e desta forma o estado de Israel vai vivendo. Poderíamos fazer aqui semelhante operação "pente fino": o exército cerca o morro, e a polícia varre casa a casa. A maioria dos bandidos escapará, mas deixarão para trás o estoque de drogas, a munição, o armamento pesado. Esta operação pode ser feita, aleatoriamente, nos principais morros, sempre de surpresa - é ilusório manter um contingente em um só morro em caráter permanente, pois a conseqüência inevitável a longo prazo será a corrupção dos soldados pelos traficantes. Isso resolverá o problema? É claro que não. Como já foi dito, o problema não tem solução. Mas a cada "pente fino", as quadrilhas dominantes sofrerão duro baque, os bandos rivais se aproveitarão disso para invadir, e a disputa freqüente daí resultante enfraquecerá consideravelmente as quadrilhas.

Se isso fosse seriamente proposto, haveria um berreiro de protestos. Então os nossos favelados são "palestinos", aquele povo oprimido pelos judeus? Se os palestinos tem mesmo direito à terra e são realmente oprimidos, eu não pretendo discutir aqui. O que eu não concordo em absoluto é quanto à suposta analogia entre o favelado e o palestino. As favelas, no Brasil, não constituem guetos onde vive uma minoria, um "outro povo" cultural e etnicamente distinto; o favelado é tão brasileiro quanto o "povo do asfalto", exceto que é pobre e vive em lugar dominado por quadrilhas de bandidos. Mas forçoso é reconhecer, eles procuram afirmar uma identidade própria, cultivam uma subcultura de gueto, e sofrem bastante nas mãos da polícia. Quem quiser conferir, pode levar rolos e rolos de fita, passar o dia todo subindo morro após morro, entrevistando os moradores, e ouvirá sempre a mesma queixa: a polícia é que é ruim; o bandido não incomoda, contanto que não se mexa com ele, e até ajuda quando pode. Você ouvirá esta sentença centenas de vezes. Quem quer que você aborde, repetirá sempre as mesmas palavras. É claro que ele dirá isso. Não pode dizer outra coisa. O bandido o conhece, sabe onde ele mora, cruza com ele todos os dias. No lugar dele, você abriria a boca?

Foi a repetição desta cantilena o que mais se ouviu, quando foram entrevistados os chorosos acompanhantes do enterro do chefão da Rocinha, morto pela polícia. Uma impressão ficou: o traficante era um santo. Não oprimia ninguém e mantinha a paz e a ordem. Mas o outro, o rival que tentou invadir e provocou toda aquela confusão, este foi retratado como belzebu de casco e chifres. Ora viva, pensei, então nem todo bandido é santo, quem diria! Alguns ainda cultivam o hábito ancestral da maldade... Mas por que estranha coincidência o bandido malvado é sempre o de fora, aquele que está invadindo, enquanto o bandido bonzinho é sempre aquele cujo bando mantém os habitantes da favela sob a mira de suas armas? Digam o que disserem, ainda acho que a polícia, por pior que seja, é muito melhor que o bandido. Eu entendo que o favelado não deseje ver a polícia invadindo a sua casa. Digo isso de posição cômoda; eu não moro em favela e sei que a polícia nunca vai invadir minha casa. Mas minha casa pode pegar fogo. Eu sei que os bombeiros vão chegar arrombando portas, quebrando vidraças, molhando os móveis, fazendo uma bagunça dos diabos.

Mas nem por isso eu deixaria de chamar os bombeiros.

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[[[[[ Berna, 2:12 PM ]]]]]