Um pouco da história do punk
por Joacy Jamys
O punk surgiu na década de 70 na Inglaterra. No começo, as bandas tocavam punk rock, estilo que confrontava o som da época: o heavy metal, o pop e outros, onde o público apenas apreciava de longe e não tinha contato com os músicos, pois não passavam de estrelas (popstars). Citam-se bandas como Deep Purple, Pink Floyd, Yes, Black Sabbath, Led Zeppelin e outras, que tinham músicas muito trabalhadas e letras viajantes, fora da realidade que o público vivia. Principalmente, na época da guerra fria e da queda do movimento hippie, que exigia nas ruas o Paz e Amor, enquanto os punks surgiam gritando o caos que enfrentavam e diziam "No future".
O punk quebrou o som feito pra vender, criando algo de poucos acordes e letras da realidade pobre de jovens desempregados e sem futuro. Criticavam o governo, a educação, os políticos, os impostos, a pobreza, o desemprego, a falta de perspectiva e outros problemas. Contudo, bandas como Sex Pistols, criadas para a moda e vender roupas de fetiche de Malcolm McLaren, chamavam a atenção das grandes gravadoras, sedentas de dinheiro deste novo som, feito por "drogados e garotos suburbanos". Acarretando em pouco tempo, uma imagem ruim do que o punk real transmitia, onde muitos foram cooptados para virarem ícones, sifras para gravadoras e até para filmes. Mas os Sex Pistols foram sinceros ao lançarem um play minimalista chamado "Sex Pistols: A grande farsa do rock and roll".
Punk é uma gíria para podre, madeira ruim, o que não presta. A origem do termo é difícil de dizer, inclusive o escritor William Shakespeare cita "punk" em uma de suas obras, nota-se então, como ele é antigo.
A década de 70 passava, enquanto bandas como Ramones, The Clash (considerada traidora porque fez um comercial para uma multinacional de jeans) e outras, caíam na mídia enquanto outras fugiam do punk que estava sendo sugado pela discoteca, tendo o filme "Embalos de Sábado à Noite" como um marco para a queda do punk rock moda, pois as gravadoras tentavam tirar a criatividade e a espontaneidade do subúrbio pobre de jovens que montavam bandas em cada esquina, para se entregarem às danceterias.
A década de 70 ainda trouxe os fanzines punks, sendo iniciado por >Sniffing Glue< (Cheirando Cola), onde mostrava que você é capaz de fazer todo seu material sem precisar comprar revistas idiotas, camisas de lojas e pagar caro por discos e fitas. Assim, criou-se o lema DIY (Do It Yourself - Faça Você Mesmo).
A CRASS foi uma das mais importantes bandas DIY da Inglaterra, mostrando que o punk politizado e anarquista era possível, que confrontar o Estado e suas vertentes, já estava na hora. Ela causou um impacto terrível ao Reino Unido, sendo alvo de pauta de discussões no governo inglês que diziam: "Crass é um perigo. É uma das piores coisas da Inglaterra!".
ANOS 80
A década de 80 trouxe um novo punk. Para as bandas não terem seus sons sugados pelo capitalismo, precisavam de um som mais raivoso que o punk rock, hoje taxado de Punk 77 (punks que ainda curtem sons como The Clash, Sex Pistols, Sham 69, Ramones, Television, Vibrators, The Jam, Uk Subs e outras). Surgia assim o HARDCORE.
O HC relaxava o punk rock, sem discriminar. O hardcore sendo um som mais direto, batidas rápidas e letras mais politizadas e contestadoras, foi um novo marco para o movimento que andava cambaleando desde 1978. Gritavam no mundo "Punk´s not dead!" (Punk não está morto!). Na Inglaterra surgiram bandas como The Exploited (O Explorado), Varukers, Discharge e outras que até hoje existem.
Com o tempo o The Exploited, foi acusada com provas gravadas, de suas atitudes fascistas onde o vocalista Wattie dizia que "odiava negros, filipinos, latinos e marroquinos". Chegou a fazer show para que os carecas matassem alguns punks num galpão. Se declararam partidários do National Front (mov. nazista inglês). No Brasil, Exploited foi boicotado por anarcopunks e o vocalista espancou uma prostituta negra. Em turnê nos USA, Wattie declarou em rádio que odiava latinos. Ao tocar na fronteira com o México e com abertura da banda mexicana Solucción Mortal, que foi visitá-los no camarim. O Exploited espancou o vocalista e outro integrante e os obrigaram a comer merda no banheiro. Contudo, a reação real punk surgiu! Durante o show, os punks latinos subiram ao palco, destruíram a aparelhagem, espancaram o Exploited e o seu empresário. Gritavam: "el fascismo no passará!".
Nos USA, Dead Kennedys foi uma das bandas que mais marcaram época. Com letras críticas e ácidas ao governo, à polícia e a forma americana de viver e explorar, levou um processo judicial por causa de uma capa de disco. Além disso, criaram um "hino" chamado "Nazi Punks, fuck off!", uma música contra o Exploited, seus inimigos declarados. Depois do término da DK, o vocal Jello Biafra montou o selo Alternative Tentacles, fez uns discos de poesias e discursos antifascistas gravados em palestras nas universidades para arrecadar fundos pro processo. Ainda montou a banda LARD.
Outras bandas americanas de HC citamos o MDC, Agnostic Front (que virou nazi), SOD (um projeto do Nuclear Assault), Crucifix, DOA e muitas outras. Entre os novos zines estavam a revista Maximum Rock'n'roll (que foi boicotado pelos punks, por tratá-la como ditadora da postura punk).
Na Europa, o berço veio nos países escandinavos (Finlândia, Suécia e Alemanha), tendo bandas como Crude SS, Anticimex, Amebix, Rattus, Terveet Kadett, Rovsvett, Lama, Ristetyt, etc.
No Brasil, muitas bandas surgiram nesta época. Ratos de Porão, Olho Seco, Cólera, Kaos 64, Desordeiros, Brigado do Ódio, Inocentes, Estágio Zero, Hino Mortal, Armagedom, WCKaos e outras, muitas punk rock (Extermínio, Psykóze, Azilo Militar, Fogo Cruzado e etc). No Nordeste surgiam Karne Krua, Discarga Violenta, Amnésia, Fome, Estrago, Deliquentes, Condenados, AI-5, Disunidos, CU.S.P.E., HC-3, Terroristas, Grito Suburbano e outras. Infelizmente, muitas destas bandas não existem e apenas Amnésia, Discarga Violenta e Cuspe continuam na cena alternativa. A DV recentemente acabou mas lançou sua discografia completa.
A década de 90, teve muitas bandas dos anos 80 que foram sugadas pelo mercado ou largaram o movimento punk, vivendo apenas do nome que na cena criou. Inocentes entrou ainda na déc. de 80 para uma grande gravadora. Ratos de Porão não é preciso nem falar, se entregaram de corpo e alma ao consumismo. Olho Seco é distribuído por um selo que distribui bandas nazistas na Europa.
Entre os zines conhecidos da década de 80 no Brasil, existia o ES-Punk, Buracaju, Grito Punk, 1992 (do Cólera, que possuía a gravadora Estúdios Vermelhos e Ataque Frontal) e outros. Apenas o Grito Punk existe e hoje está virando revista punk anarquista.
Com muitos grupos brasileiros na década de 80, o Maranhão possuía o MPS (Mov. de Protestos Suburbano) e na déc. 90, o MAP (Mov. Anarcopunk) que virou a ULMA (União Libertária).
A DÉCADA DE 90
Os punks mudaram muito e evoluíram. Mais uma vez o famigerado mercado sonoro abocanhou o hardcore e bandas falsas no movimento ou que usavam o estilo como Raimundos, DFC, Os Cabeloduro e outras bostas, faziam letras bobas, sexistas e machistas, por integrantes que nada tinham a ver com a cena. Por outro lado, o movimento punk havia se distribuído no Brasil inteiro.
Confrontando o HC comercial, muitas bandas aderiram ao grindcore, um som sujo, rápido e sem a mínima intenção de agradar. Curte quem gosta. Como também surgiu o crustcore, som influenciado principalmente em Discharge, Terveet Kadet e outras finlandesas. Há também o loadfast, ou melhor, a total antimúsica feit apor quem não sabe tocar ou faz por gostar (como eu). Citamos a 7MON (7 Minutos de Náusea), que chega a tocar 365 sons em 19 minutos e Sore Throat com uma zoada total.
O movimento anarcopunk surgiu para incentivar mais a atitude punk como real, atacando não só musicalmente, mais as estruturas sociais que causam problemas e miséria no mundo. O anarcopunk sai para criar novas saídas diretas, preocupados com a conscientização, conta a homofobia (discriminação homossexual), xenofobia (discriminação a outros lugares, regiões, países), o armamento militar e policial, à violência urbana, a alienação da TV e da mídia, o racismo, a política profissional, a educação alienante, o capitalismo e a fama e tantas outras merdas.
Muitos são contra os anarcopunks por sua postura direta. Mas, eles estão procurando se organizar em encontros regionais, nacionais e internacionais, ações diretas, organizações de grupos e atividades culturais, sociais e beneficentes. Buscam uma forma de viver sem o estado e de maneira fraterna e libertária.
A cena atualmente possui diversas distros, bandas, zines, ocuações (squats) grupos e se organizam em encontros regionais e nacionais, inclusive um internacional em Salvador. Isso mostra que a cena punk está firme e trabalhando o que sempre propôs nas décadas anteriores.
O punk é muito mais que visual. Ele é real. Uma ameaça constante.
Retirado de
GritoPunk
ANARKOMENTÁRIOS:
Atualizacao Normalizada , o texto é um pouco grande mas vale a pena ler.
Rede Globo de Alienação?
Por décadas, a grande Besta Negra dos intelectuais tem sido o sr. Roberto Marinho. Sejam intelectuais de esquerda ou de centro (de direita quase não há), ativistas ou acomodados, artistas ou acadêmicos, ninguém gosta desta figura sinistra. Uns consideram-no o Doutor Fausto, outros o próprio Mefistófeles. Atribuem-lhe ciladas traiçoeiras, ardis maquiavélicos, total falta de escrúpulos, ligações suspeitas, oportunismo despudorado, farsas dissimuladas, imenso poder tentacular, como um polvo; sobre ele chegam a correr lendas urbanas que o dão como falecido e secretamente substituído por um testa-de-ferro, sob o comando de poderes ocultos. Foi ele o diabólico criador da Rede Globo de Alienação, que controlaria a mente de milhões de brasileiros e os manteria dóceis e obedientes à elite dominante.
Por absoluta falta de dados e de interesse, não tenho nenhuma intenção de discutir o caráter do sr. Roberto Marinho, nem de afirmar se são verdadeiras ou falsas as acusações que lhe imputam. Mas pode-se discutir a real dimensão de seu poder, e o motivo do imenso sucesso comercial da Rede Globo. A versão aceita é de que tudo começou quando ele abraçou a causa da revolução de 64, fato que lhe renderia toda a sorte de facilidades da parte do novo regime. Bem, isso pode explicar como a TV Globo começou, mas não como ela chegou ao ponto onde chegou. E, teorias conspiratórias a parte, a explicação do sucesso da Globo, a meu ver, é bem simples. É a mesma razão de todo o empreendimento de sucesso: ela é orientada ao mercado. Em outras palavras, ela exibe ao telespectador aquilo que o telespectador quer ver.
Mas é isso o que o povo quer ver? Não, de modo algum, isto é o que ele é induzido a ver! Tudo efeito dos poderes hipnóticos do sr. Roberto Marinho, verdadeiro Goebbels renascido, no comando de uma sinistra organização de especialistas em desinformação a soldo do imperialismo norte-americano. Já ouvi uma universitária, certa vez, a afirmar com toda a solenidade que a Globo estaria empregando o método Paulo Freire ao contrário, visando alienar a sociedade inteira. Os intelectuais repetidamente criticam a Globo por falsear nossa realidade social, mostrando novelas onde todos os personagens são ricos e cheirosos. Mas como Joãozinho Trinta teve a coragem de dizer, quem gosta de miséria é intelectual, o povo quer é luxo... Para a infelicidade de nossa garbosa elite pensante, o povão não quer saber de pobre nem de revolução. Fenômeno similar ocorre em Portugal, onde as pessoas mais letradas lamentam que o país esteja invadido por novelas da Globo, produto de baixo valor cultural. Mas o sucesso destas novelas em terras lusitanas é uma evidência de que o nível mental do povo português, no fim das contas, não é muito diferente do brasileiro. Acredito ter chegado ao cerne da questão: o sr. Roberto Marinho é tão odiado pelos intelectuais porque ele comete o crime de dolorosamente mostrar aos intelectuais que o povo não é como eles gostariam que fosse...
Mas que a Globo é um sucesso, isso ninguém discute. Basta visitar qualquer barraco na favela: pode faltar tudo, mas a TV é sempre de último modelo. Já escutei a piada segundo a qual o pobre prefere comprar uma TV a uma geladeira porque, se abre a geladeira, ele não vê nada, mas se liga a televisão, ele vê tudo. Repetidas vezes ouvi "madames" indignadas por saber que suas domésticas possuem eletrodomésticos mais modernos que os delas, e vêem nisso a prova da irresponsabilidade que atribuem aos pobres, que "passam fome" e mesmo assim querem comprar uma TV último tipo. Quanto a mim, sou de opinião que o pobre sabe muito bem o que faz na vida, e se prefere comprar uma TV a fazer uma boa feira, é porque a TV lhes dá mais satisfação. E tem certo valor, sim. A televisão é a forma mais rala e massificada de difusão cultural, mas sem dúvida que é melhor do que nada. E distrai, sim. A distância social não impede que os pobres se identifiquem com os personagens ricos das novelas, e chorem por seus dramas. É a magia do Padrão Global. Em qualquer lugar do mundo, novelas são estigmatizadas por serem produções rasteiras e bregas, a ponto de serem conhecidas internacionalmente pela denominação irônica de "soup opera" (ópera de sabão), que vem dos tempos do rádio e remete aos intermináveis seriados baratos e patrocinados por uma fabriqueta de sabão qualquer, que as pessoas simples gostavam de acompanhar por não terem mais o que fazer. Por que a novela brasileira tem um padrão de qualidade diferente? Há nesse fato alguma coisa ligada a nossas peculiaridades, que nos diferenciam dos demais países latino-americanos?
Com certeza, a diferença entre as novelas brasileiras e as "mexicanas" é flagrante. Nada de tramas inverossímeis, coincidências incríveis, aristocratas que em pleno século 21 habitam mansões senhoriais ao invés de condomínios elegantes; nada de interpretações duras e falas empoladas, nem de latinos gélidos como nórdicos. O universo social, entretanto, é o mesmo: tanto nas novelas brasileiras como nas "mexicanas" o mundo é composto apenas de ricos e pobres, sem classe média. Digo novela mexicana entre aspas porque na verdade as novelas seguem este padrão em todas as partes do mundo, só a brasileira é diferente. E bem diferente. Aqui o tempo é o presente e a linguagem é a coloquial. Os acontecimentos que impactam o nosso dia-a-dia também impactam o dia-a-dia dos personagens. As locações são lugares que nos são familiares e os personagens se parecem com pessoas que conhecemos, só que... não são reais. Tudo é revestido de um discreto retoque para se acomodar ao Padrão Global.
E é este retoque a verdadeira razão do sucesso comercial das novelas da Globo. Não é um remendo tosco, é um retoque cuidadoso e esmerado. São mostradas as diferenças sociais e as mazelas morais, mas os aspectos repulsivos são eliminados. Os humildes empregados tem boas roupas e falam direito. A ex-menina de rua parece uma gatinha da zona sul. Os imigrantes do século 19 têm todos os dentes na boca e suas cozinhas são limpinhas. A garota de programa só cobra em dólares. Enfim, a Globo não mostra nada que não exista, mas tudo competentemente retocado pelo Padrão Global, que produziu esta notável invenção: o pobre que não fede.
Como nenhum pobre gosta que lhe lembrem de que é fedido, é com prazer que ele assiste às novelas da Globo. O visual exuberante e os personagens "gente fina" das novelas brasileiras, o visual démodé os personagens esquemáticos das novelas latinas, o quadro social só de ricos e pobres em ambos os casos, tudo isso ilustra nossa semelhança e nossa diferença em relação aos demais sul-americanos: não somos, em média, nem mais ricos nem mais cultos do que eles, mas sem dúvida somos bem mais diversificados e cosmopolitas.
ANARKOMENTÁRIOS: