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[[[[[ Domingo, Junho 26, 2005 ]]]]]

Roda de Pogo - A Dança Punk

Diferente de shows de cantores e bandas famosas onde os fãs vão para ver a banda e cantar as músicas, num show punk o objetivo principal é dançar. Uma dança bem peculiar, que até parece uma briga campal com chutes e socos para todos os lados.

Essa é a "Roda de Pogo", aquele aparente tumulto em frente ao palco, que na verdade é a dança amigável de várias pessoas que estão felizes, chutando o estresse e curtindo um som. Esse documento vai tentar descrever essa dança e as suas características.

O Ambiente, Vazio

Vamos começar com o lugar onde acontecem os shows. Nada de grandes galpões, palcos espaçosos de 2 metros de altura, camarotes, seguranças, jogos de luzes, gelo seco, inspeções sanitárias e dos bombeiros. Esqueça tudo isso. Os shows acontecem em bares, porões, garagens e similares. São lugares comuns e apertados, que às vezes têm um palco.

Então imagine um bar comum, um boteco com balcão e mesas. No fundo, uma porta que está sempre fechada e leva a uma sala pequena, escura e vazia, sem móveis, sem decoração. Essa é a sala onde acontecem os shows. Suas características:

-As paredes são escuras (pintadas de preto ou simplesmente sujas).
-Não há janelas, pois o som não pode escapar para a vizinhança.
-Ventiladores são um extra e ar condicionado não existe.
-A iluminação é mínima, com luzes amareladas e cansadas.
-O cheiro é uma mistura de mofo com fumaça de cigarro, cerveja e suor dos shows anteriores, porém é suportável.
-O chão é grudento.

No canto da sala tem um "palco", um tablado preto de 20cm de altura onde cabe uma banda de três integrantes. O palco é vazio também, pois os amplificadores, instrumentos e toda a aparelhagem são trazidas pelas bandas.

Extintores? Saída de incêndio? Luzes de emergência? Esqueça...

O Ambiente, Cheio

O público chega e o lugar fica cheio. Mas cheio no sentido "lotado" da palavra. Não há espaço para se movimentar livremente, é preciso que outras pessoas saiam do caminho para que você possa andar. Tem de tudo: punks de moicano colorido, metaleiros cabeludos de preto, carecas de suspensório, gurizada de 14 anos, bêbados do boteco, surfistas de bermuda e até gurias bem arrumadas.

Os caras das bandas são pessoas não identificáveis no meio do público, que na sua vez vão ao palco para tocar. Nas outras bandas eles são como todos os outros, assistem e participam do pogo.

A porta fica sempre fechada para o som não escapar para a vizinhança e lembre-se que não há janelas. O resultado é que o ar não circula, não se renova. Verão ou inverno, tanto faz. Dentro da salinha é sempre um forno e todos suam. "Calor humano" ganha um novo sentido nesse ambiente.

O cheiro que antes era suportável agora fica realmente forte. São adicionados mais ingredientes à mistura: respiração, flatulência e suor dos presentes, cerveja derramada no chão (Ah, por isso que é grudento!) e fumaça de cigarro (nicotina e maconha). Depois de um tempo você aprende a ignorar o seu nariz.

Devido ao calor do ambiente, a maioria dos caras está sem camisa e pingando de suor, e como todos estão espremidos, o contato de sua pele com o suor de vários indivíduos é inevitável. O tato é outro sentido que você aprende a ignorar.

O lugar é fechado, então as paredes começam a suar. O teto também fica molhado e gotas de sei-lá-o-quê caem na sua cabeça. O chão fica igualmente molhado de suor e de cerveja, passando de grudento a escorregadio. Este é um elemento dificultador do pogo.

Não há seguranças. Não há policiamento. Não há qualquer tipo de controle. O dono do bar raramente se incomoda com o show. As bandas e o público tomam conta de tudo. O bom senso funciona, mesmo tendo vários bêbados e drogados no recinto.

A primeira banda vai ao palco e o show vai começar. São cinco integrantes que se espremem para caber no mini-palco. É comum eles se trombarem durante o show. A primeira fileira da platéia consegue ver a banda toda, o resto do público só vê cabeças. Mas como o objetivo é dançar, ou melhor, pogar, isso não importa.

O Pogo

Ah, o pogo. A razão da existência de um show punk. O momento de alegria e energia quando o punk e o surfista se abraçam, depois se chutam, depois se abraçam de novo e por aí vai. Tudo numa boa.

Pogar é simplesmente "dançar" num contexto punk. O termo "poguear" também pode ser usado, porém é menos comum. O som punkrock/hardcore é forte, rápido e cheio de energia, e a dança reflete essas características. Ao ouvir a música, seu corpo inteiro vibra e a vontade que dá é a de extravasar essa energia: pular, correr, sair chutando o mundo. E assim é a dança, consiste em pulos, correrias e movimentos cadenciados de braços e pernas.

O pogo clássico foi eternizado com o desenho da banda Circle Jerks:



O movimento é o seguinte: você anda, dando os passos no ritmo da música. A cada passo, a perna é levantada e esticada, dando-se um chute no ar, como se estivesse chutando uma bola de futebol. Um chute médio, nem fraco nem forte.

Nota: O detalhe é que ao invés de chutar o ar, você chuta outras pessoas, pois estão todos espremidos, lembra? Mas preste atenção, você não está chutando outra pessoa porque você quer. A música faz você chutar o ar e por acaso há outra pessoa no lugar do ar. Tanto o chutante quanto o chutado estão cientes disso, então todos se chutam o tempo todo e isso é normal.

O tronco e a cabeça são movimentados para um lado e para o outro, acompanhando o ritmo e os chutes. É a ginga.

Os braços ficam dobrados em 90 graus e os punhos fechados, fazendo um movimento alternado, para frente e para trás, no ritmo da música. É como um boxeador em posição de defesa do rosto, só que com a guarda mais aberta (os punhos não se tocam) e os cotovelos bem afastados. A cabeça fica levemente abaixada. Esta é uma posição de defesa da cabeça, para evitar colisões. Assim, nos choques o que se bate são os cotovelos e antebraços.

Algumas variações incluem uma posição diferente dos braços, dobrados na vertical e fazendo movimentos para cima e para baixo. Ou ainda dar joelhadas no ar ao invés de chutar.

Então se você nunca viu, imagine a dança. Um boxeador defendendo a cabeça, gingando e dando chutes no ar. Isso é pogar. Agora imagine vários boxeadores suados e fedidos fazendo isso em um espaço minúsculo, se chocando e se batendo o tempo todo. Isso é um pogo

A Roda de Pogo

A roda de pogo é uma evolução natural do pogo. Com cada um andando em uma direção diferente, os choques frontais são muito freqüentes e a dança fica prejudicada. Apesar de se trombar fazer parte do jogo, se trombar demais impede que se faça a ginga no ritmo da música.

Nada é combinado, mas intuitivamente todos começam a andar para uma mesma direção, diminuindo o caos de colisões frontais. Como o espaço é reduzido, só é possível andar em círculos, ao redor do centro do pogo. Esta é a roda de pogo.

O sentido não importa, mas parece ser mais "natural" andar no sentido anti-horário. Não sei porque, experiência própria.

A roda geralmente se forma na frente do palco, logo atrás do pessoal do gargarejo na primeira fileira. Ela pode ser pequena ou imensa, dependendo do número de integrantes. Geralmente há apenas uma. O resto do público que não quer pogar se acomoda ao redor da roda, levando uns chutes, cotoveladas e encontrões de vez em quando.

No intervalo das músicas a roda pára e todos descansam. É comum ver abraços entre amigos, sorrisos e gritos, típicos de quem está se divertindo bastante. Os sorrisos também são comuns de ver no meio da roda. Chutar e ser chutado faz parte do jogo e todos fazem isso com alegria. É a libertação. É uma grande festa punk.

As Variações da Dança

Quando a banda é realmente boa e todos estão muito empolgados, é comum ver variações do pogo clássico, que podem incluir:

Rodar a camiseta acima da cabeça e gritar.
Jogar cerveja para o alto e gritar.
Subir no ombro de outro cara e rodar a camiseta e/ou jogar cerveja.
Pular no ar num momento de ápice da música.
Dar vários pulos consecutivos no ápice do momento de ápice da música.
Levantar um braço com o punho fechado e cantar frases da letra.
Levantar os dois braços e com os punhos e olhos fechados cantar a frase da letra que realmente é especial para você.
Abraçar o primeiro cara que ver na frente e pogarem juntos por alguns segundos. Não ficar muito tempo abraçado que senão é viadagem.
Fechar os olhos e simplesmente deixar o corpo solto, sendo jogado para todos os lados junto com o pogo.
Fazer um mosh.

O Mosh

O mosh (pronuncia-se móchi) não é uma exclusividade de shows punk, mas por ser bem freqüente a sua execução, merece ser comentado também. "Dar um mosh" é subir no palco e se jogar de lá, caindo em cima da platéia. O nome gringo é "stage dive", mas eu aprendi como mosh.

Funciona assim: você se joga. As pessoas te seguram não porque querem, mas porque é a única maneira de não se machucarem com o choque do seu corpo, já que o lugar está lotado e não é possível sair debaixo. Por isso é mais sábio pular em cima das pessoas que estão assistindo o show, e não no pogo.

O pulo é uma questão de estilo. Pode ser frontal (tipo mergulho), de costas, com giro, com mortal, braços abertos, qualquer coisa menos pular "em pé". Isso é coisa de frutinha que está com medinho de se machucar. E ainda pode machucar os outros com a pisada.

Aconteça o que acontecer, saia logo do palco. Se você subiu para dar um mosh, corra e pule. Não fique saracoteando ou querendo tomar o lugar do vocalista da banda. Se você quer mesmo cantar monte sua própria banda.

Também não fique feito um trouxa pedindo para que o pessoal se junte para te segurar, ou fazer "cadeirinha". Se não há onde pular, simplesmente desça do palco na boa e volte para o pogo.

LEMBRE-SE: Qualquer permanência não solicitada de mais de 5 segundos em cima do palco é considerada manézisse extrema.

As Regras

Punks e regras não combinam. Mas o pogo é como um mundinho à parte, com as suas regras de conduta e de boa convivência que devem ser respeitadas.

É muito comum para um iniciante ver a roda de pogo e logo concluir: "Ah, saquei, basta socar e chutar todo mundo e estarei dançando". E lá vai o pequeno gafanhoto fazer isso no pogo. Ele com certeza sairá machucado.

Todos no pogo sabem quem são os que estão dançando na boa e os que estão abusando. Qualquer pancada diferente do normal é facilmente reconhecida e a repreensão pode vir verbalmente ou com outra pancada mais forte. "Sem querer", é claro. Brigas no pogo são raríssimas.

ETIQUETA DO POGO

Cada um pode dançar como quiser, batendo nos outros de maneira amigável e não intencional, sem abusos.

Se alguém cair no chão (escorregadio, lembra?) os que estão ao redor fazem uma "cabaninha" para protegê-lo e o ajudam a levantar.

Se precisar amarrar o tênis/bota/coturno, faça isso fora do pogo.

Se você achar alguma coisa no chão, entregue para o cara da banda anunciar no microfone no intervalo das músicas.

Uma guria pogando ou dando mosh deve ser encarada como um punk suado fedido. Nada de aproveitar para tirar uma lasquinha. Isso é coisa de mané.

Se você quer que sua namorada pogue, deixe-a. Ficar protegendo a mulher no meio do pogo é ineficiente e atrapalha os demais. Ou deixe-a livre ou saiam da roda.

Pogo e cigarro não combinam, pois brasa quente e caras sem camisa se atraem. Se quiser fumar, saia do pogo.

Cansou? Saia do pogo, não fique parado no meio atrapalhando o fluxo.

Tomou uma pancada forte? Tente identificar se foi intencional ou sem querer. Geralmente é sem querer. Saia da roda para se recuperar. Se foi intencional, marque o cara e depois bata nele "sem querer" também em outra música, para que ele saia do pogo. Se quiser ser mais construtivo tente conversar e explicar o que ele fez de errado.

Bateu forte em alguém sem querer? Peça desculpas na hora para não ser confundido como intencional. Mesmo se desculpando, sair do pogo por alguns minutos pode ser uma boa idéia. Avalie a situação.

Não brigue. Você notou que não há brigas no pogo? Faça a sua parte para que isso continue assim.

O Fim

Terminados os shows, você está exausto, sem ar, com sede, com fome, fervendo, suando e com dores por todo o corpo. As roupas estão encharcadas numa mistura de suor, cerveja e as gotas de não-sei-o-quê que caem do teto. Perder a camiseta é comum, não se preocupe. Seu cheiro é insuportável. Suas roupas devem ir direto para o tanque ou para o lixo. A nuca dói. Há arranhões e hematomas no seu corpo, principalmente no antebraço e nos cotovelos. Seu tênis/bota/coturno está irreconhecível, todo pisoteado e sujo.

E o principal: há um BAITA sorrisão em seu rosto e você se sente renovado, vivo, feliz.

ANARKOMENTÁRIOS:
[[[[[ Myself, 2:55 PM ]]]]]
[[[[[ Domingo, Junho 12, 2005 ]]]]]

E ai pessoal como anda a vida com vocês?
Eu sei que não sou de ficar postando bio de bandas por aqui, mas essa banda em especial, merece ser colocada sua bio aqui...
Pode ser que muitos não a conheçam, então aqui fica também o toque para que ouçam essa grande banda chamada Crass.
E quero deixar um abraço hoje pelo dia dos namorados pra galera que namora ae.
Embora esse não deixe de ser apenas mais um dia para que o comércio acabe com o nosso suado e cada vez mais raro dinheiro.
Apoveitando a deixa do dia de hoje, deixo um grande beijo pra minha querida Miriam (Leya).




"GROSSEIRO PELO NOME, PIOR AINDA POR NATUREZA"

Assim começa a definição da banda por Steve Sutherland. E continua:"Eles são os últimos sussuros do rock que uma vez brilhou e vibrou rebelião. Eles são tão desagradáveis, arrogantes, ausentes de humor; que vivem em seu mundo preto-e-branco onde palavras são tão somente um monte de slogans chocantes, frutos de sua raiva."

CRASS tem que ser considerado a banda mais ideologicamente engajada e destemida, séria e impetulante, raivosa e controvérsia, chocante e intransigente da história da música uma vez chamada de rock'n'roll. A verdade é que não há semelhanças ao CRASS em nenhuma parte obscura da história da música. Eles foram os idealistas do punk- os únícos idealistas. Foram os únicos da música destinados a divulgar suas idéias e opiniões- não eles mesmos. Foram quem o célebre-cérebro Jello Biafra chamou uma vez de 'radicais demais'. Radicais demais para Jello Biafra, pois se você conhece a história deste cara sabe que proporções essa afirmação toma. Foram o fruto ideológico de influências que inspirou e originou bandas como Discharge, Chaos UK, Chron gen, Anti-pasti, Conflict, M.D.C. e várias outras menos conhecidas. Mas diferente dessas bandas, poderiam ser considerados realmente como uma ameaça real à sociedade, e não somente uma revolta passageira juvenil, uma banda de crianças malcriadas.

Vieram da primeira onda punk inglesa, de onde surgiram os Sex Pistols, The Clash, The Damned; mas foram os que introduziram a idéia-base para originar a segunda onda, o ativismo reacionário propriamente dito, a postura militante punk que em raras ocasiões foi levada à sério de novo. Seus integrantes não eram tão inexperientes no ramo como seus contemporâneos das outras bandas, já tinham vivência no mundo anarquista (comunidades) e em movimentos juvenis (hippie). Steve Ignorant era um jovem punk insatisfeito com as direções que o movimento tomava na Inglaterra, e junto ao baterista já não tão jovem assim Penny Rimbaud (o grande mentor da banda), formaram o CRASS. Gravaram as primeiras músicas no iníco de 1977, com Steve Herman na guitarra. Em seguida a artista plástica Gee, amiga de infância de Penny tomou parte da turma. Depois os outros integrantes foram surgindo um a um, enquanto Herman saía da banda: Phil free (guitarra-base) e Andy N. A. Palmer ou B. A. Nana ou Hari Nana (segunda guitarra e uma das 'cabeças' da banda), Eve Libertine e Joy de Vivre (vocais). Libertine fazia a maioria das vozes enquanto Vivre fazia outras poucas, como 'women' e 'walls',...), Mick G. Duffield (Backing vocal e cineastra que consolidou os filmes expostos nos shows), Pete Wright (baixo e vocal visceral em faixas como 'securicor', 'you pay',...). Gee Sus não era menos importante para a banda, pois fazia todas as colagens, montagens e desenhos dos discos e pôsteres (ela praticamente criou o estilo visual do que seria a arte gráfica punk) e os detalhes sonoros nas gravações como piano, flauta, barulhos de rádio, carros, trens, serras-elétricas, etc.

Logo no início foram todos morar na fazenda que Penny tinha em Essex (Gee já morava com Penny). Roubaram, pegaram emprestado ou mendigaram os instrumentos que usariam na banda. Eram expulsos de todos os lugares onde tocavam. Seu som não era algo acessível e pop como o som tipicamente punk, principalmente o som dessa primeira onda. Quando o punk se domesticou, bandas como Pistols e Clash tocavam em programas de tv para a família típica londrina, faziam turnês gorda$ pela Europa, E.U.A. O CRASS então se viu sozinho, de novo, pois conheciam essa história- já tinham vivido e visto o movimento hippie se entregar ao sistema e se tornar uma coisa 'legal'.

Não eram intelectuais ou coisa assim de início, não tinham conhecimento erudito sobre revolução, anarquia e outros conceitos (Steve Ignorant disse uma vez que se viessem falar pra ele sobre Bakunim naquela época, ele provavelmente acharia que este fosse o nome de uma Vodka!), mas tinham a verdadeira vontade de mudança, o ímpeto pela transformação.

A repulsão que tinham às bandas punks do seu tempo era clara: chamavam o Clash de lixo, caça-níqueis, xingavam individualmente todos os integrantes dos Pistols; além dos lugares e ambientes dessas bandas. Eram expulsos dos lugares 'undergrounds' onde as bandas punks tocavam, como o 'Roxy Club' por exemplo. Eram evitados nos círculos punk. Sua honestidade e empenho incomodava aos que estavam lá apenas por brincadeira, que não obstante eram todos. Contestavam o narcisismo visual punk fashion usando roupas absolutamente pretas, tocavam em lugares obscuros, à parte da cena local, com bandas como UK Subs. O público consistia quase somente dos integrantes das bandas que tocavam no dia. E assim foi no início, em 77.

No começo de 1978, a banda passou a usar uma postura mais séria e radical ainda. Não queriam ser simplesmente mais uma banda punk, e sim uma forma ambulante e versátil reacionária. Queriam mudar os rumos da sociedade, e, pela convicção que demonstravam, não parecia de forma alguma pretenção. Sabiam como seria difícil essa tarefa, mas estavam dispostos a dar a vida em nome disso. Passaram a iniciar uma bateria de ações subversivas e de contestação, como panfletagem, protestos, publicações de manifestos, zines, jornais, cartões, invasões, boicotes, pichações (foram os responsáveis pela vinculação do símbolo "A" de anarquia para o grande público- antes era somente conhecido por leitores de alguns raros livros sobre o assunto) ... Sempre enfrentaram problemas sérios com a justiça, usavam nomes falsos e nunca se indentificavam, se vestiam rigorosamente de preto e abusavam das leis sempre que fosse possível. Criaram uma comunidade anarquista em Essex (Inglaterra), idealizaram os famosos 'squads', que seriam as moradias dos punks que apropriavam prédios públicos inativos.

Os shows eram atuações ímpares, onde tocavam sempre em ambientes pouco iluminados, com dezenas de faixas e cartazes expondo mensagens como:"Quem eles pensam estar enganando, você?", "Se entupa com seu lixo sexista" ou "Não importa em quem você vote, o sistema sempre vencerá", filmes passados no fundo do palco com imagens surrealistas de guerras, violências, matanças, matadouros...

Gravaram o primeiro disco, um EP com 17 músicas, The Feeding Of The 5000 ('alimentando os cinco mil', referindo-se ao medo de não conseguirem vender nem mesmo a prensagem inicial, que é de 5000 discos) pela Small Wonder Records na segunda metade de 1978. O disco era inaudível para a época e havia sido feito da forma menos cara possível: havia sido gravado todo em 'take one' (ao vivo e uma vez só), e tinha a capa toda em preto-e-branco, tudo isso para baratear no máximo a produção. A imprensa então pôde finalmente atacar a banda, algo que já queria há muito tempo. Mas com isso, de alguma forma, acabaram divulgando a banda. CRASS era a única banda que a mídia não mantinha em suas mãos, portanto, a que menos existia para eles. Surgiram então as ofertas de contrato, de várias gravadoras que diziam poder 'vender a revolução CRASS'; todas foram negadas. A primeira música desse disco, 'Asylum', foi censurada já na fase de prensagem, antes mesmo da censura legal; a fábrica negava-se a 'prensar' o disco. O álbum acabou sendo lançado sem a música, mas em seu lugar foi colocado dois minutos de total silêncio, em nome da liberdade de expressão sufocada.

Ian Mckaye pode ter sido ilustre ao idealizar a filosofia 'straight-edge' de respeito aos animais, do vegetarianismo, de sua postura contra as drogas- tudo isso por volta de 81/82. Porém, não tão majestoso quanto o CRASS, que fez tudo isso muito mais clara e concretamente cerca de cinco anos antes, apesar de ficarem sem os devidos créditos. Eles não comiam carne, não usavam produtos de origem animal, Não usavam produtos industrialmente processados- e muito pelo contrário, faziam inclusive o próprio pão. Eles eram realmente independentes, não precisavam de nada do mundo 'civilizado', portanto, não deviam nada a ninguém; eram como uma fortaleza pronta para atacar...

Criaram o conceito de gravadora independente no punk, pois não havia outra forma sincera de publicar seus trabalhos. A gravadora lançava bandas punks que demonstrassem sinceridade e compromisso com suas idéias muito mais que somente com a música. Daí surgiram Conflict, MDC, Captain Sensible, Zounds, Rudimentary Penni, Anthrax(UK), Kukl (a primeira banda da cantora Bjork), etc... Os discos e encartes eram produzidos artesanalmente, na própria fazenda, e vinham com o encarte com todas as letras e o preço-baixíssimo, menos que a metade do preço médiano na época- impresso na capa, para que fosse o mais acessível possível.

O sucesso de sua postura underground até o fim se deve a total repulsa a fama, ao sucesso comercial, a ideologia mercenária. Não davam entrevistas, não permitiam fotos nem filmagens; simplesmente para não terem sua imagem distorcida pela mídia como sempre acontece. Assim, o CRASS manteve seus motivos claros e reputação intacta.

Nunca cobraram nem receberam para benefício próprio, dinheiro por tocar. Certa vez, quando tocaram no primeiro RAR (Rock Against Racism-Rock contra o racismo) da história, disseram estarem dispostos a deixar o cachê em nome da causa. Então os organizadores disseram: "Esta é a causa. Guardem o dinheiro pra vocês..."- resultado: a banda nunca mais tocou para este festival.

No final de 78, com a CRASS Records pronta para lançar discos, decidiram então relançar o primeiro disco, com a música 'Asylum' incluída. A Small Wonder estava cansada das frequentes visitas da polícia e ameaças anônimas. Lançaram então um compacto com 'Reality asylum' (versão extendida de Asylum) num lado e 'Shaved woman' no outro. Venderam esse cada disco por 45p e faliram logo em seguida. Mas o problema não foi só esse: a opinião pública se queixava do conteúdo explícito do disco e a polícia obrigou a retirá-lo das lojas, além do fato da Scotland Yard fazer uma visita a residência da banda. Foram notificados e avisados; como se fossem desistir por isso.

Estavam sempre na lista negra da rádio BBC de Londres, onde apareciam raramente, mas com impacto, cuspindo na política de Tatcher, e na atuação nas Malvinas. O público então ligava para a rádio reclamando e o CRASS era censurado e tirado do ar logo em seguida. Começaram então a trazer para as entrevistas nas rádios vários grupos anarquistas. Essas e outras ações em conjunto com grupos anarquistas levou ao ressurgimento da extinta CND (movimento anarquista Inglês), introduzindo a filosofia a milhares de pessoas. Surgiram a partir daí outros movimentos anarquistas, algo extinto a quase um século no mundo cultural Europeu,- alguns existem até hoje. O CRASS foi quem associou a idéia ANARCO-PACIFISTA ao punk.

Gravaram então em 11/8/79 (num só dia!) The Stations of CRASS. Desta vez, o disco vendeu bem, e então puderam juntar algum dinheiro para os próximos lançamentos, inclusive de outras bandas, além de outras formas de divulgação. A numeração dos discos era baseada na contagem regressiva para o ano de 1984,- o ano apocalíptico de Orwell (planejavam acabar a banda neste ano). Começaram então a fazer show beneficentes em nome de várias causas, como liberar os anarquistas presos em manifestações, ou trabalhadores explorados e desempregados. O envolvimento entre os punks e o anarquismo-ativista crescia cada vez mais. Os shows enchiam mais e mais e haviam fundos de sobra para aplicar em várias causas e projetos.

Depois de The Stations of the CRASS, achavam já haver criticado todos os setores podres do pensamento sujo da sociedade vigente (consumismo, racismo, violência, guerra, religião..), mas faltava um ponto especial, não percebido antes como essencial: a posição social da mulher. Gravaram então Penis Envy (inveja do pênis) em 80, um disco somente com vocais femininos com idéias ultra-feministas (eles diziam ser mais relacionado a questão feminina do que feminista). A imprensa chamava o disco simplesmente de .... , pois consideravam o nome totalmente obsceno e imoral. O disco foi tão bem aceito que, em uma semana atingiu o Top 50 da Inglaterra. Mas, como já se previa, na semana seguinte, não se podia encontrá-lo em lugar nenhum; percebia uma conspiração da indústria fonográfica sobre a banda: as gravadoras pagavam para terem seus discos nas paradas... Descobriram uma nota da EMI onde dizia aos seus departamentos para evitarem contato com o CRASS e para os shoppings evitarem seus discos.

O CRASS, entre 80/82, cansado de tocar em clubes e universidades, passou a fazer turnês por conta própria pelo interior do país, onde se desconhecia inclusive o rock. Acompanhava a banda nessas excursões centenas de pessoas, celebrando o senso mútuo de anarquia e a troca de conhecimentos: esse foi o surgimento da COMUNIDADE CRASS. Tocavam em regiões cada vez mais longíncuas, e cada vez mais eram recebidos com sorissos pelo povo local. Os shows eram sempre em nome de entidades beneficentes. Esses festivais sempre acabam em espancamento, de um lado a comunidade anarquista e do outro a polícia nacional.

Recebiam cartas de apoio de de todo o mundo; da Iugoslávia, África do sul (negros e brancos), expressando como suas mentes foram estimuladas e questionadas pelos discos da banda. Receberam uma carta de um soldado alemão que decidiu largar o exército depois de ouvir a música 'Bloody Revolutions'. Receberam também cartas de um marinheiro inglês que criticava a banda, xingava as ações do CRASS e dizia que eram atitudes típicas de vagabundos as que a banda tomava (uma visão naturalmente fascista). Quando achavam que nunca mais receberiam notícias do referido marinheiro, receberam outra carta onde ele dizia que havia entendido a lógica e os argumentos básicos do CRASS, e disse que estava amargamente arrependido do que havia escrito anteriormente, e que agora pensava de outra forma (agora já com uma visão anarco-pacifista).

Começaram a gravar Christ-The Album (Cristo, o disco) em 81. Esse disco continha músicas que alertavam de uma possível invasão Inglesa em solos estrangeiros. Não deu outra: antes do lançamento do disco (2/82), a Inglaterra entrou em guerra contra as Malvinas. A imprensa esperava uma ação da banda para poder rotulá-los de 'traidores da nação'. Morderam a isca, como tinha de ser, e lançaram então um single com a música ("Como deve se sentir uma mãe de 1.000 mortos?"), uma questão nada agradável a mãe mão-de-ferro Margret Tatcher. Foi a ocasião para serem transformados pelo estado como os inimigos número um do reino Inglês. Tatcher falava publicamente sobre a música, ameaças de morte da polícia federal eram frequentes à banda, o cinismo era a face da imprensa e, os grupos pacifistas, notadamente hippies, que brandavam:"No More WARS" (guerras nunca mais), permaneciam calados. Poucos se uniram a banda nessa causa, mas a mídia tinha sido avisada para deturpar qualquer ação contra a política da guerra. A situação estava difícil. Estavam como em uma arena; a qualquer momento, por qualquer deslize seriam destroçados. O perigo era imenso, e por muitas vezes quase desistiram de tudo.

Foi então que fizeram o primeiro festival 24 horas de show punk na Inglaterra, uma forma particular de contra-ataque. Ocuparam um teatro de uma hora para outra no subúribo de Londres, e lá permaneceram heróicamente por dois dias contra a represária em massa da polícia. Comida e bebida eram de graça, e outras 23 bandas punks tocaram. O slogan 'do it yourself' (faça você mesmo) usado neste show, se tornaria o símbolo de qualquer ação musical underground punk feita pelo mundo.

A época das eleições estava próximas, e a necessidade de uma ação era eminente. Lançaram então Yes Sir,I Will (sim senhor, eu obedecerei) em 83, um disco que mais parecia um livro falado com música ao fundo, onde se criticava os que aceitavam o poder passivamente, e tinha como mensagem central a máxima "não há autoridade a não ser você mesmo". Queriam acabar com a reeleição de Tatcher de qualquer maneira. Surgiu então a idéia da fita 'tatchergate' (alusão ao caso watergate, de Richard Nixon, ocorrido nos E.U.A. no início dos anos 70). Depois da fita, os poderes ingleses, americanos e soviéticos estiveram em situação delicada; a imprensa do mundo todo comentava o fato. Foi então que um ano depois a banda assumiu o feito, e se tornou então o centro das atenções. Cediam entrevistas para rádios do Canadá à Tókio, eram tratados como uma força política e, pela primeira vez, com certo receio e medo. Foram então vítimas do que seria o último aviso da corte: "Nós temos meios de calar vocês."

A super-exposição à mídia levou ao conflito de interesses dentro da banda; a necessidade da individualidade afogada por tanto tempo em nome da 'comunidade' precisava emergir. Cada um queria seguir seu caminho e se encontrar, pois os ovos já haviam chocado e os recém-nascidos tinham uma estrada inteira à frente. A banda acabou em 1984 depois de uma última apresentação pública. Gravaram "10 notes on a summer's day e Acts of Love" (dez notas num dia de verão e atos de amor), e a coletânia dos singles"Best before... 1984" (melhor antes de... 1984), respectivamente entre 84 e 86. Já não estavam presentes todos os integrantes do grupo durante esses lançamentos, e mesmo assim afirmavam "...continuaremos lutando, individualmente ou em grupo, mas não mais nos limitaremos a manter o formato de banda."

Não há como negar; não há como esconder: CRASS foi a banda que surgiu para mudar, que teve como contexto e motivo de ser uma reforma radical nos pilares nojentos e já podres de nossa sociedade. Ninguém tinha culhões necessários para serem kamikazes como eles foram. CRASS foi a primeira e a única, CRASS abriu as portas para os outros entrarem. Assim como o estilo punk rock tocado até hoje não é nada mais do que uma variação do som que os Ramones criaram em 1975, a atitude punk como um todo não é nada mais do que uma variação do que o CRASS fez, e na imensa maioria das vezes, uma variação ordinária...

ANARKOMENTÁRIOS:
[[[[[ Myself, 5:04 PM ]]]]]
[[[[[ Domingo, Junho 05, 2005 ]]]]]

Punk é Anarquismo?

É muito comum vermos em todo o lugar uma galera que se diz, anarquista, não por conhecer a teoria anarquista, não por saber quem foi Proudhon, Bakunin ou Kropotnik, e sim pelo simples fato de verem nas camisas e discos de bandas punk, o tão conhecido símbolo do A, um símbolo que reflete atitude para quem o carrega, mas ignorância para quem o usa pensando só se tratar de "um mundo sem governo", "abaixo o sistema".
Vamos por partes, o punk não é um sinônimo de anarquismo, na Europa e Estados Unidos existem até punks nazistas, até mesmo o cara mais respeitado pelos neo-punks, Jello Biafra, faz esse alerta em "Nazi Punks Fuck Off", e a maioria dos punks de hoje estão nessa por moda, isso mesmo, punk é moda, uma moda que pode até ser eterna, mas é moda. O que mais se vê são punks mais preocupados se o seu visual está chocando o bastante, do que estudar a teoria anarquista.
E tudo isso começou com um cara chamado Malcom McLarem, que resolveu botar um grupo de garotos alienados que gostavam de se picar e mandar a rainha se fuder, a tocar uma som que estava revolucionando o rock nos EUA, criado por Stooges, MC5 e estourado pelos Ramones que não estavam nem aí em querer passar alguma falsa mensagem/atitude e sim se divertir, pois o grupo de garotos viu um show do Ramones em Londres e pensou "Agora eu quero ser isso" até aí tudo bem, só que resolveram misturar àgua com óleo e fizeram a música que mudaria para sempre o sentido da denominação "Punk", a música "Anarchy in UK", até então "Punk" éra o nome de uma revista que falava do CBGB, e simplismente significa "vagabundo", Hoje não deixa de significar isso, mas é um punk que nem sabe o que é o diz que é.
Alguns Punks gostam de falar mal do comunismo, mas não por saberem das divergências teóricas entre Marx e Bakunin, e sim por quererem ser, se achando anarquistas, a única solução contra o capitalismo. Também sem saber, estão fazendo a mesma coisa que fazem os Skin-Heads Nazistas, que usam camisetas anti-comunistas, mas vivem batendo nos punks. Talvez se os punks se unissem aos comunistas lendo e entendendo, que o anarquismo e o comunismo são dois meios de se chegar a um mesmo objetivo, uma sociedade igualitária, talvez apanhassem menos dos "Carecas do Brasil" versão Brasileira dos bulldogs nazistas.
Mas parece que isso está mudando, em SP, berço do Movimento Punk no Brasil, já há punks usando máscaras de guerrilheiro e camisetas que ao invés de terem nomes de bandas como Chaos UK, Exploited, GBH, trazem nomes de guerrilhas como FARC e EZLN, esses dias ví um punk (punk mesmo, dos que mechem no lixo e fedem a saco sujo), com a camisa do Che Guevara no Gasômetro. Ou estão criando consciência, isso ou apenas consideram mais uma imagem/atitude legal de ser copiada. Aposto 10 na segunda opção.
Portanto não me venham relacionar a música mais revolucionária que existe, no sentido de ter sido criada por uma galera que não estava nem aí se pra fazer rock tinha que pelo menos saber o que é um instrumento, em uma época em que o rock se transformava em uma coisa chata feita por guitarristas posers e suas intermináveis seções de masturbação-sonora, chamadas solos (aliás, que coisa mais anti-comunista é um solo).

Retirado de Zine Profecia

ANARKOMENTÁRIOS:
[[[[[ Myself, 7:36 AM ]]]]]